Minha nada óbvia escolha

Como explicar nossas escolhas, que por muitas vezes passam distante daquelas óbvias?

Quem me conhece sabe bem o quanto, em alguns momentos, acabo contrariando a lógica fazendo o inesperado.

Vários aspectos da minha vida seguem esse “não padrão”, sejam as opções para lazer, a música para ouvir, a cerveja para tomar e também, o time para torcer.

Nesse estranho mundo à ótica dos outros, várias foram as vezes em que causei surpresa ao responder àquela pergunta tão presente nos diálogos iniciais de quem está se conhecendo.

“Gosta de futebol? Pra qual time você torce?”

Vezes por gozação, outras com admiração, a surpresa ao ouvir “Portuguesa” é sempre presente.

Escolher uma equipe sem muito apelo, torcida e títulos de longe passa da obviedade. Se acostumar a lidar com as derrotas e saborear cada vitória como uma grande conquista são fatos para os quais já estou habituado.

No entanto, vez e outra tenho que tentar explicar o “porquê” dessa escolha.

Tive a oportunidade de ler o livro escrito pelo Leandro Vignoli, “À sombra de gigantes”, onde o autor, viajando por vários países, conseguiu captar a essência de pequenas equipes e, principalmente, de seus torcedores.

O futebol vai muito além de títulos, dinheiro e um estádio moderno com vários fãs e turistas.

Torcer pelo mais fraco, tendo consciência da remota chance de gritar “É CAMPEÃO” é um requisito básico se começar.

“Nós não ganhamos sempre. Mas quando ganhamos, é sempre especial”. Keith Mcalllister, torcedor do Queen’s Park.

A afinidade com um clube, muitas vezes é passada de geração em geração. Não foi o meu caso. Sou o primeiro da família a bandear para o lado lusitano. Uma escolha sem nenhum motivo aparente, apenas a identificação com a equipe e seus torcedores, que enxergam o futebol como algo além de uma competição esportiva, sendo mais como um ritual onde poucos têm o privilégio de serem chamados a viver junto ao clube.

“A atmosfera do nosso estádio é o que mais conta. Não nos sentimos como um cliente, mas parte de uma grande família”. Juliane, torcedora do Union Berlin.

Não morar em São Paulo torna ainda mais difícil me manter por dentro do que acontece no cotidiano do clube. Mais difícil ainda é conseguir assistir aos jogos no Canindé.

Assim, a cada oportunidade que tenho de acompanhar uma partida in loco, a emoção e satisfação é sempre igual aquela da primeira vez.

Ganhar ou perder faz parte do jogo. No nosso caso, a segunda possibilidade é que mais está presente nos últimos anos. Isso faz com que cada vitória seja saboreada ao máximo; sabemos desfrutá-las.

“Se eu fosse passar mal por toda vez que meu time não ganhar, eu já estaria morto”. Sergio Candel, torcedor do Rayo Vallecano.

Prefiro torcer por um clube sem uma grande, porém fiel torcida. Não me agrada o clima de show ou megaevento que outras equipes criam para seus jogos.

Sentar naquela arquibancada de cimento, poder andar por ela com a bola rolando, conversar e conhecer histórias de outros “sofredores” como eu vale mais que um ingresso para uma área VIP ou camarote em um Santiago Bernabéu ou Camp Nou.

“Nos importamos com futebol. Mas não é tudo. Talvez seja a nossa grande diferença: a de que vencer a qualquer custo não é o mais importante”. Georg, torcedor do St. Pauli.

Torcer pela Portuguesa, deixando de lado o “Trio de Ferro” nos faz especiais. Somos privilegiados de poder vibrar por um clube que parece ter nos escolhido a dedo para compor sua torcida.

Estar ao lado daquele que vence sempre é muito cômodo, lógico e até mesmo insípido. Não há emoção na obviedade.

“É fácil escolher o outro time nesta cidade. Então sentimos que torcer pelo Torino é, na verdade, ser um escolhido”. Gian Paolo Casana, torcedor do Torino.

Escolher um clube com poucos títulos, pouca torcida e atualmente sem divisão para jogar no futebol nacional é apenas mais um detalhe entre as inesperadas e incompreendidas decisões que tomei na minha nada óbvia vida.

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